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Em frente à porta, abraçou-me e sussurrou-me docemente ao ouvido: «Não te preocupes. Estarei sempre presente para te defender. Não permito que ninguém te faça mal. Foi assim por dezassete anos e será sempre, enquanto for viva».
«Tia, o que está a acontecer?» consegui perguntar baixinho.
«Está calma. Agora vai para o teu quarto. Tens três minutos para pegares na mala que está debaixo da tua cama e enchê-la com aquilo que te pode ser útil nos próximos dias. Quando estivermos longe daqui te explicarei tudo. Prometo-te».
Não tive outra escolha.
Corri para o meu quarto, abri o guarda-roupa e comecei a encher a mala que tirei de debaixo da cama, com camisolas e calças. Alguma roupa interior, o estojo de maquilhagem e as minhas poupanças. Estava prestes a fechar a bagagem, quando notei a foto que tinha sobre a mesa-de-cabeceira perto da cama. Era uma foto minha com a tia abraçadas em frente à cancela da quinta.
Adorava aquela foto tirada pelo Ahmed há alguns anos atrás.
Coloquei-a também e fechei o zip da mala.
Saí do meu quarto, olhando-o mais uma vez. Aquele tinha sido o meu quarto de infância, o meu refúgio.
Tinha esperança de um dia poder voltar ali, mas alguma coisa me dizia que aquele era um adeus.
Fechei a porta do quarto atrás de mim com um véu de tristeza.
Mal desci para o piso inferior, o padre Dominick agarrou-me pelas costas e arrastou-me para fora de casa em direção a um carro negro, que estava estacionado em frente à cancela da quinta.
Mal me viram, os dois homens desconhecidos entraram no carro e o mais forte pôs-se ao volante.
«Quem são aqueles dois?» perguntei.
«Não há tempo para explicações» abreviou o padre, fazendo-me entrar no carro, para depois apressar-se a ajudar a tia, que estava a dois passos da viatura. Nesse instante, chegou Ahmed.
«Ahmed, chegou o momento do qual falámos com frequência. Adeus» a tia cumprimentou-o, pouco antes de entrar no carro empurrada pelo padre Dominick.
«Fechar a porta e partir. Adeus, Cecília. Vera, vou ter saudades tuas» cumprimentou-nos o Ahmed com um ar triste.
«Adeus, mas talvez nos voltemos a ver» confortei-o, mas ele sacudiu a cabeça e foi-se embora, no mesmo instante em que a BMW negra também partiu.
Senti uma onda de infelicidade propagar-se no meu coração.
Comparando com aquilo, o que tinha sentido pelo Kevin depois de ter sabido do seu futuro casamento, parecia uma ninharia.
Gostava muito do Ahmed e nunca pensei que um dia, ficaria sozinha.
Mal o carro partiu a toda a velocidade, senti o suspiro de alívio da tia e do Dominick.
Apenas eu permanecia tensa como uma corda de violino.
«O Ahmed não vem connosco?» tentei perguntar.
«Não, Vera. O Ahmed tem que ficar a tratar dos nossos assuntos. Dará a casa a uma instituição de caridade e avisará a escola da tua partida, informando-a da tua transferência inesperada devido a problemas de saúde e depois partirá para a Tunísia com o dinheiro que lhe deixei numa conta corrente particular, para ser usado só em caso de necessidade. Na verdade, há anos que isto está tudo planeado» explicou-me a tia, acariciando-me a cabeça.
Tudo isto era ainda incompreensível para mim. Mil pensamentos e frases pronunciadas giravam na minha mente a uma velocidade incontrolável. Não conseguia memorizar um pormenor, que depois desaparecia para dar lugar a outra coisa qualquer.
Ahmed. A escola. Kevin. Patty Shue. Ron. A quinta. Eles.
O cardeal Montagnard. Dublin. O cardeal Siringer.
Tantos, demasiados pensamentos passavam a grande velocidade na minha mente.
Pensava na escola. Estava a recuperar a biologia e ainda tinha que receber a nota do relatório de história.
Para além disso, continuava zangada com a Patty por ter dito a todos que estava noiva do Ron.
Que sentido tinha tudo isto, se no dia seguinte estarei, sabe-se lá onde?
Não voltaria a ver o Kevin. Porquê levar tão a peito o seu casamento com a Clara, se eu não ia estar presente na mesma.
Talvez estarei morta em maio. Não me tinha esquecido que alguém me procurava, depois de ter morto um homem. Era óbvio que tinha reservado para mim o mesmo final cruel.
Eles.
Eles, quem?
Ainda ninguém me tinha explicado quem era esta gente e o que queria de mim.
Tentei pela enésima vez.
«Por favor, expliquei-me porque está a acontecer isto tudo e quem são eles?».
A tia olhou-me com os olhos cheios de tristeza e desespero. Também o padre Dominick olhou-me angustiado.
«Olha, tu és uma rapariga especial» a tia iniciou com esforço.
«Em que sentido?».
«Nasceste em circunstâncias especiais, inesperadas e ainda em parte desconhecidas. Só o cardeal Montagnard sabia a verdade e quando a tua mãe morreu, ele decidiu tomar conta de ti. Desde o nascimento mostraste graves problemas de saúde por causa da tua anemia, mas ele fez de tudo para ajudar-te a sobreviver e ao fazê-lo notou que havia algo em ti maravilhosamente inesperado. Não disse a ninguém o que era, mas decidiu fazer-te crescer num ambiente protegido. Posteriormente, revelou ao cardeal Siringer, o chefe da Ordem da Cruz Ensanguentada, o teu nascimento e disse apenas que eras a solução para o seu problema».
«Qual problema?».
«Ser-te-á revelado no tempo certo, mas fica sabendo que o teu nascimento trouxe muita confusão na Ordem. O cardeal Montagnard mandou regressar do Zimbabwe Cecília, um antigo membro da Ordem, encarregando-a de criar-te, enquanto o cardeal Siringer exigiu um controlo externo, o padre August. Só cheguei mais tarde, quando a Cecília pediu uma ajuda amiga capaz de apoiá-la» interveio o padre.
Então não era verdade que quando a minha mãe morreu, a tia encontrava-se em Portugal, pensei.
«Sabes, nunca tinha tido uma filha e tinha medo de errar contigo, além que o padre August criticava todas as minhas escolhas e dizia que tinha sido um erro teres sido confiada a mim, porque me tinha apegado demasiado a ti e isso não me permitia ser objetiva. Dominick era um velho amigo meu e confiava cegamente nele. Além disso, conhecia a Ordem e as suas leis, assim decidiu envolver-se com o objetivo de dar-te uma determinada educação religiosa» contou a tia.
Agora percebo porque nunca tinha gostado do padre August.
Tinha sempre a sensação que me controlava e a tia não se sentia confortável na sua presença.
Mas, de momento, o que me deixava mais perplexa era o motivo de tanto secretismo, sobretudo da parte da minha tia, que apesar de tudo era a prima da minha mãe.
Mencionei-o à tia, que me olhou com uma expressão ainda mais angustiada.
«Bastou-me ter-te nos braços por apenas um minuto, que percebi o quanto te adorava. Eras a criatura mais doce e bela do mundo. Todas as vezes que me sorrias, a escolha de abandonar os votos para estar contigo, tornava-se menos penosa. Apercebi-me que podia ser feliz assim, mesmo servindo o Senhor de forma diferente. Todavia...» iniciou a tia, mas as palavras não lhe saiam.
«Todavia ela não é realmente tua tia, ainda que te ame como uma mãe ama o próprio filho» o padre Dominick terminou por ela a frase com um ar de sofrimento.
Fiquei petrificada.
A tia Cecília não era minha tia?
Tudo, menos isto.
Isto era demasiado.
Não consegui pronunciar nenhuma palavra.
Estava transtornada.
Olhei a minha tia, ao meu lado, no banco posterior do carro, que chorava baixinho, repetindo continuamente: «Perdoa-me».