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«Por quanto tempo pensas continuar assim?» perguntou-me Dominick, cansado do meu silêncio.
«Para sempre» sussurrei.
«Então és uma idiota. Claro que o Kevin tem a sua cota parte de culpa porque sempre te iludiu com os seus gestos carinhosos e gentis, mas foste tu quem construiu castelos no ar. Ele nunca disse que te amava e muito menos que queria estar contigo, assim se confundiste uma paixoneta de rapariguita imatura com amor, a responsabilidade é apenas tua. Cresce porque o amor é outra coisa» desabafou Dominick furioso.
Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira e não estava mesmo nada à espera.
Olhei-o chateada.
«Então, diz-me o que é o amor» provoquei-o com um tom de voz ácido.
«É um sentimento muito mais profundo, que se constrói com o tempo e estando próximo da outra pessoa tanto nos momentos mais felizes como nos mais difíceis. Se amasses realmente o Kevin, estarias feliz pela sua escolha, porque desejarias a sua felicidade e o seu bem-estar. O amor verdadeiro não é um desejo egoísta, como o teu!».
Pensei muitas vezes naquelas palavras tão duras e fortes.
Por fim, percebi que o padre Dominick tinha razão. Aliás, o que eu sabia verdadeiramente do Kevin, para além do facto que era sempre gentil com os clientes?
Para ser sincera, não sabia nada dele.
Não sabia qual era o seu prato preferido, que tipo de música escutava, o que gostava de fazer no seu tempo livre, para além de estar com a Clara, se era desorganizado ou meticuloso...
Todavia, não conseguirei esquecer todos aqueles anos dedicados a fantasiar acerca dele e de uma possível história de amor toda nossa.
Em poucos dias, voltei a comer, dormir e falar.
A tia Cecília ficou tremendamente aliviada ao ver-me novamente em forma, sobretudo depois de ter tomado a minha hemodose e voltar a ser falastrona como antes. Durante dias tinha tentado fazer-me comer, preparando-me todo o género de comida, mas eu tinha desistido. A minha recusa contínua em dirigir-lhe a palavra, também a tinha feito desesperar.
Por fim, também eu estava feliz por voltar a ser a Vera de antigamente.
Um dia, era quase noite, quando o telefone tocou.
Eu estava entretida com o enésimo filme de amor choramingas, por isso não lhe prestei atenção. Foi a minha tia a atendê-lo.
Não conseguia compreender o que a tia dizia, mas apercebi-me que tinha acontecido algo de grave, porque o seu tom de voz mudou e ficou muito preocupada.
Foi um curto telefonema.
«Está tudo bem?» perguntei-lhe, quando a vi regressar da cozinha, onde tínhamos o telefone.
«Infelizmente, o cardeal Montagnard morreu de um enfarte».
«Lamento. Conhecias-lho bem?».
«Sim. Estava muito ligada a ele e admirava-o tanto como homem, quanto como eclesiástico» explicou-me a tia com lágrimas nos olhos.
Era a primeira vez que via a tia triste pela perda de alguém e não pensava que pudesse sofrer assim tanto.
Ficou apática e silenciosa durante dias, atormentada pela sua dor.
Por fim, decidi esperar a segunda-feira da semana seguinte.
Na escola tinha sido convocada uma greve contra a lei da redução dos professores e por isso, teria todo o dia livre e estava determinada a levar a tia ao centro comercial para fazer compras.
Ainda que não tivesse muito dinheiro de parte, devido à minha reduzida mesada semanal, tinha intenções de comprar-lhe um presente nem que para isso, gastasse todas as minhas poupanças.
Queria levá-la às lojas e comprar-lhe um perfume, uma camisola ou um livro.
Qualquer coisa que lhe fizesse voltar a sorrir.
Por sorte, aquela segunda-feira chegou rápido.
Levantei-me à hora habitual, mas desci com calma para tomar o pequeno-almoço, depois de me ter lavado e vestido cuidadosamente.
«Vera, é tardíssimo! De certeza que vais perder o autocarro!» repreendeu-me a tia, mal coloquei os pés na cozinha.
«Hoje não tenho que ir à escola! Há greve» expliquei-lhe imediatamente com um grande sorriso nos lábios.
«Ah, sim. Talvez me tinhas dito... não me lembro» respondeu-me a tia com um tom de voz ausente.
«Pois. Por isso, decidi ir à cidade, porque tenho que comprar um livro para a escola. Podes acompanhar-me, por favor? Menti. Sabia que se dissesse à minha tia que queria levá-la às compras, nunca aceitaria, mas se se tratasse de material escolar, estaria sempre pronta.
«Está bem, mas agora não. Prometi ao Ahmed que falávamos sobre o novo gado, que chegará até o fim da manhã, mas hoje à tarde de certeza que te posso levar à livraria» assegurou-me.
Projeto adiado.
Detestava adiar os meus planos, porque depois chegava o enésimo contratempo a estragar tudo.
Devia tê-lo antecipado para o dia anterior.
Assim dei por mim a não saber o que fazer.
Acabei por optar pela televisão.
Passou-me a vontade de sair.
Estava prestes a voltar para o quarto para mudar de roupa, quando de repente, soou a campainha.
Fui abrir.
Era Dominick acompanhado de dois homens altos e maciços, vestidos de negro com o desenho de uma cruz branca com uma gota vermelha ao centro, bordado no bolso do casaco.
Fiquei tão curiosa com aqueles dois endemoniados, nunca antes vistos, imóveis perante a porta da minha casa, que não prestei atenção à voz transtornada do padre Dominick, que me empurrou bruscamente para dentro de casa e gritou o nome da minha tia.
«Cecília, têm que se ir embora! Agora!» gritou o padre Dominick aterrorizado.
«O que está a acontecer?» perguntou-lhe a tia, tentando não mostrar a sua angústia.
«Eles sabem tudo e estão a chegar!» gritou novamente o padre Dominick.
«Eles quem?» intrometi-me alarmada.
Ninguém me respondeu, mas percebi que a tia sabia a quem o padre se referia, porque levou a mão direita à boca, para tentar sufocar um grito.
«Mas como é possível?» sussurrou a tia com um fio de voz.
«Assassinaram-no! Assassinaram o cardeal Montagnard, depois de o terem feito confessar! Agora eles sabem tudo e vocês não estão mais seguras. Virão procurá-las e quando o fizerem, apanharão a Vera e vão matá-la».
Eu? Mas o que tinha a ver com isto tudo?
Estava tão chocada que não consegui abrir a boca.
«Dispararam-lhe em vez de usarem o seu habitual modo de atacar. Por isso, a Ordem levou tanto tempo a perceber quem era o culpado do homicídio. De certeza que foi o Blake. Só ele e o seu bando são capazes de um crime semelhante. Ninguém sabe o que aconteceu realmente, mas ao que parece o cardeal contou tudo ao Blake, provavelmente sob tortura» continuou o padre Dominick.
«Mas é terrível!».
«Pois e agora devem fugir. Já vos reservei um quarto num hotel em Dublin. Quando chegarem, receberemos novas ordens do cardeal Siringer, que nos quer encontrar».
«Mas como fazemos?» suspirou a tia abalada.
Naquela quinta estava a sua casa, a sua vida.
E também a minha.
«Temos que partir imediatamente. Vamos viajar toda a noite, se necessário. Seremos escoltados por dois membros de confiança da Ordem, sob coordenação do cardeal Siringer, que nos levarão primeiro ao hotel e depois ao lugar prefixado para o encontro. Por isso, mexam-se! Levem o mínimo indispensável e vamos embora!» recomeçou a gritar o padre Dominick.
Por alguns segundos, que me pareceram horas, a tia e o padre olharam-se intensamente nos olhos, depois disso, como que movida por uma força inexplicável, a tia agarrou-me por um braço e arrastou-me pelas escadas até ao meu quarto.