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Acompanhado? Perguntei surpreendido.
Sim, mas suponho que não tinha ninguém com quem vir afirmou com um tom sarcástico o terceiro bailarino ao descer do palco.
A verdade é que, se soubesse ao que vinha, poderia ter convidado alguém, mas como não dizia nada
Como nada? Perguntou o primeiro ator, que fizera de bilheteiro. Está escrito o lugar, a hora e até que era um espetáculo de balé.
Sim, é verdade, mas não me imaginei num sítio como este, vi no jornal que anunciavam uma companhia de balé que atuaria hoje, e pensei que eram vocês.
Antes fosse! Disse a mulher. Nem sequer somos uma companhia, apenas um grupo de amigos que resolveu oferecer um pouco de arte ao povo, mas isso sim, preferimos que seja de qualidade e que transmita emoção ao espetador.
Ouviu bem? Emoção! E não diálogo! Afirmou o terceiro bailarino, enquanto se sentava do meu lado.
Bom, parabéns, continuem assim. Eu disse, tentando acabar com aquela situação desconfortável, pois era a primeira vez que ia a uma dessas representações alternativas, ou lá como se chamava.
Raramente ia a lugares artísticos, mas quando o fazia, procurava sempre que fossem obras de companhias internacionais.
Espere! Disse a jovem, segurando-me pelo braço do casaco. O que é isto?
O quê? Perguntei surpreso.
Este anel e este bilhete? O que quer isto dizer? Perguntou desconfiada enquanto o retirava da caixa.
Não faço a mínima ideia, veio com a caixa afirmei sem saber o motivo da sua desconfiança.
Deixámos a caixa no parque para que quem quisesse nos pudesse vir ver e assim ficarmos a saber a sua opinião, mas não colocamos isto lá referiu o primeiro ator.
Pois posso garantir-lhes que isso já estava aí dentro quando recebi a caixa insisti.
Tome! Disse a rapariga, entregando-me ambos os objetos.
E o que quer que faça com isto? Perguntei contrariado ao ver que não lhes pertencia.
Não sei, mas não é daqui. Agradecemos a sua visita e a sua opinião acerca da nossa representação afirmou a rapariga enquanto me indicava o palco com um gesto de mão.
Acompanhe-me à saída falou o terceiro bailarino, enquanto caminhava diante de mim.
Segui-o até à saída, atravessando o caminho estreito e após cruzar a porta, voltei-me e a única coisa que recebi daquele homem foi:
Mais diálogo? O que é que você sabe de balé?
Após dizer isto fechou a porta e deixei-me ficar ali por uns segundos a observá-la antes de me voltar e olhar à minha volta.
A rua estava quase toda às escuras, à exceção de alguns estabelecimentos de bebidas e de jogos, desses que ficam abertos vinte e quatro horas.
Olhei para ambos os lados e não vi um único carro. Olhei para o relógio e fiquei admirado ao ver que já tinha passado mais de uma hora desde que saíra do meu escritório.
E onde é que encontro um táxi a estas horas? Disse para mim próprio enquanto começava a caminhar rua acima, à espera de que passasse algum.
Como o ar começava a ficar mais fresco, subi a gola do casaco e meti as mãos nos bolsos, quando me apercebi de que trazia aquele anel. Retirei-o, e com dificuldade, reparei que tinha algo gravado. Algo de que não me tinha apercebido antes, mas que também não conseguia ver bem com aquela luz fraca.
Voltei a guardá-lo no bolso e com a mão, toquei no bilhete e apercebi-me de que continha um certo relevo numa das suas pontas. Retirei-o e pus-me a observá-lo, mas não vi nada.
Pode ser que dê para ver melhor debaixo da luz, disse para mim, enquanto o levantava na direção de um candeeiro, que a vários metros de altura, fazia os possíveis por manter a rua iluminada.
Nada, assim também não dá para ver. Afirmei após tentar observá-lo de vários ângulos.
Estava entretido naquilo quando a rua se começou a iluminar e reparei que um carro se aproximava. Guardei depressa o pedaço de papel e fui tentar pará-lo.
Táxi! Táxi! Gritei, enquanto abanava as mãos no ar para que me visse.
Precisa de um táxi, senhor? Perguntou o condutor, parando do meu lado.
Sim, obrigado afirmei aliviado enquanto entrava para a parte traseira do carro.
Para onde quer ir?
Para o Hotel Plaza.
Teve sorte de eu passar por aqui, não é uma zona muito recomendável.
Pois, estou a ver que não eu disse, vendo que se tratava de um bairro negligente.
Está cá de visita? Perguntou o taxista.
O quê? Devolvi, enquanto observava o bairro que atravessávamos.
É a sua primeira vez cá na cidade? Insistiu.
Não, eu moro cá.
Onde? No hotel? Perguntou o taxista num tom de brincadeira.
Sim, isso mesmo. Afirmei decisivo.
Desculpe, mas não estou a perceber disse o homem surpreendido.
Há anos que vivo lá, e dessa forma posso concentrar-me no meu trabalho sem a necessidade de me distrair com coisas desnecessárias como as lidas domésticas.
Que trabalho pode ser assim tão absorvente? Perguntou o taxista curioso.
Sou psiquiatra respondi, enquanto baixava a gola do casaco.
Psi quê? Dos loucos? Perguntou, soltando uma gargalhada.
Aquele que trata da saúde mental dos cidadãos desta cidade salientei sem me deixar afetar por aquele comentário jocoso, que nem sequer era dos mais ofensivos que já tinha suportado.
Bem, não interessa, e isso dá-lhe para viver num hotel? Você deve ganhar bem ele disse, enquanto fazia um gesto com os dedos indicador e polegar, indicando dinheiro.
Nem por isso, mas como não tenho outros gastos, posso-me dar a esse luxo.
Ah! Sim, estou a ver! Afirmou o taxista, mostrando um sorriso brincalhão.
Se você fizesse contas do que gasta com o aluguer ou hipoteca, mais os gastos de luz, água, seguros e comida, provavelmente optaria por uma solução como a minha afirmei, fazendo-o ver as vantagens daquilo.
Se dissesse à minha mulher que íamos viver para um hotel, a primeira coisa que ela me perguntaria era se tinha ganhado a lotaria o homem brincou.
E a segunda? Perguntei, seguindo a sua piada.
O que faria com a minha sogra. Respondeu às gargalhadas.
Tem uma família grande? Perguntei intrigado.
Grande? Se contar com a minha mulher, a minha sogra, os tios e os primos, sim. Quando nos reunimos todos, somos dez. E vem outro a caminho. E você, não é casado? Perguntou divertido.
Não. Quer dizer, já fui, mas ela abandonou-me.
Ah, lamento afirmou o taxista, mudando de tom.
Não lamente, ela fugiu com outro enquanto eu estava num congresso.
Está a falar a sério?
E começamos os dois a rir daquela situação tão absurda. Até que se seguiu um momento de silêncio, quase tão desconfortável como o que senti quando voltei para casa naquele dia e encontrei o bilhete de despedida da minha mulher, a dizer: Espero que consigas tudo o que queres, eu também vou tentar, por isso vou-me embora.
Eu andava sempre com o bilhete na carteira, para todo o lado que ia, mas ainda não tinha chegado a mostrá-lo a ninguém, talvez por vergonha ou por medo de partilhar os meus sentimentos. Era óbvio que ela não era feliz comigo e que queria explorar novos horizontes.